Estímulos originados no <em>zapping</em>

Francisco Silva
Num destes dias, quando o zapping fez passar pelo receptor de televisão da sala de estar cá de casa, e não me recordo, com exactidão, se era eu que pilotava o aparelho de comando do televisor ou outro dos seus habitantes - sem contar, é claro, com o cão - quando o zapping, dizia, nos meteu o Miguel de Sousa Tavares (MST) a falar, bastaram as poucas frases ou palavras que ouvi da sua boca, e tanto quanto as julgo ter entendido, para agarrar o assunto para este texto. Poucas palavras porque, entretanto, o espectáculo já tinha mudado de canal (e afinal de contas, está-me já a parecer, não devia ser eu que estava ao comando do aparelho com que se efectua a operação dezapping).
Ouvi então a mensagem de MST, que discorria sobre um dito do candidato Mário Soares em terras alentejanas, um dito deste a vangloriar-se do papel que teria tido no desemburrar do empreendimento do Alqueva. Dizia MST que não via razão para isso, para utilizar tal «feito» como bandeira de propaganda eleitoral (e eu a pensar, com toda a ingenuidade, ser o Alqueva, em termos genéricos um dos objectivos estruturais mais encarecidos por uma imensa maioria da população de toda aquela zona). Com efeito, os proprietários daquela zona - e da forma como o MST se referia, parecia-me que se estaria a referir à sua prática totalidade - terão achado que o regadio não fazia parte dos seus saberes fazer e venderam as suas terras «aos espanhóis», após o que foram tratar da sua vida para as deliciosas terras algarvias.
E se aqueles agricultores portugueses venderam as suas terras foi porque outros que sabiam da poda lhes encontraram valor, ou tê-las-iam comprado se não fosse esse o caso? Quando os trabalhadores, há umas três décadas, quiseram fazer a terra frutificar, aqui del rei, que não respeitaram a sacrossanta propriedade. Agora, agricultores de Espanha compraram-nas com dinheiro à vista, e não terá sido assim tão pouco. Caso os processos tenham tramitado correctamente, então, segundo a legalidade capitalista, que tem a dizer MST, ou outros que tenham ideias semelhantes, contra o processo? Querem agarrar o nosso povo à não produtividade própria daqueles portuguesíssimos terratenentes, como aliás é o que acontece um pouco por todo o tecido económico português?

Já agora...

Mas agora quero sobretudo focar um dos pontos de toda esta problemática. Refiro-me à questão da inovação, ao estar preparado para ela e ao querer levá-la por diante. Refiro-me, ainda mais em particular, à questão do conhecimento científico e tecnológico e à detenção dos necessários saberes fazer. Segundo MST - pode-se tentar ler nas entrelinhas do que ele, naquele seu modo, já bem menos mas ainda vivaz, foi dizendo -, a realização do empreendimento do Alqueva, ao obrigar à inovação do regadio naquela zona - que, julgo, na minha ignorância, não será uma «tecnologia» tão recente assim -, teria levado como que à «desnacionalização» daquelas terras.
(Dá mesmo vontade de questionar: e se os proprietários portugueses das terras do Alqueva agora transformadas em zona de regadio se tivessem nacionalizado espanhóis, deveriam essas terras ter-lhes sido confiscadas? Com franqueza, como é que uma pessoa inteligente e brilhante como MST pode cair em armadilhas destas? Mas vou parar este desconversar e procurar continuar a escrita de uma forma correcta.)
Pergunto: Se não sabiam o necessário e queriam mesmo ser empresários, por que não se decidiram a aprender o que precisavam para a nova actividade? Por que não o fizeram, quando possuíam um factor terra, pelos vistos, de elevado valor? E, nos casos em que não possuíssem o conhecimento e o saber necessários, porque não contrataram quem deles fosse possuidor, mesmo que fossem técnicos espanhóis caso não os houvesse a falar português (também já cá temos médicos e enfermeiros espanhóis)? E os serviços do Estado Português também não poderiam ter dado uma mãozinha? Dirão que não, que não se deve perturbar o eficiente funcionamento do mercado, um mercado que a construção do Alqueva por iniciativa do Estado já terá perturbado. Etc.
(Eu a pensar «parvoíces», recuado: Ao menos com os espanhóis haverá mais e melhor emprego naquela zona, já que não podem ser os trabalhadores portugueses, proibidos de serem eles a tomar o seu e o destino daquelas terras nas suas mãos).
E já agora por que não desenvolve MST um trabalho de investigação jornalística acerca do «Alqueva, regadio, empresários agrícolas portugueses versus espanhóis»? Isto, em vez de se ficar por meras insinuações a la page mediática.


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